Diminuir, Eliminar, Criar, Ampliar: a matriz que reinventou o circo
- carlos raimundo dos santos
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Atualizado: há 9 horas

Quando uma empresa precisa mudar, a pergunta que quase todos fazem é: o que vamos criar?
É a pergunta errada — ou, ao menos, é apenas um quarto da pergunta certa.
A Matriz Diminuir/Eliminar/Criar/Ampliar é uma ferramenta de análise e planejamento estratégico que organiza a transformação em quatro movimentos simultâneos. E o mais interessante é que três deles não têm nada a ver com criar.
Os quatro quadrantes
DIMINUIR. Aqui o grupo identifica aspectos do modelo de negócio, processo ou produto que podem ser reduzidos. Atividades que pouco agregam valor. Coisas complicadas ou indesejáveis num mundo onde usos, costumes e valores mudam numa velocidade que as décadas passadas não conheceram.
ELIMINAR. Aspectos que devem simplesmente deixar de existir: itens que não são mais rentáveis, que estão em queda de aceitação pelo mercado, que foram limitados por novas leis, ou que a sociedade passou a não aceitar.
CRIAR. Novas ideias, oportunidades de mercado, necessidades ainda não atendidas — e, criticamente, sua viabilidade de adoção.
AMPLIAR. Aquilo que já funciona e merece ser expandido, porque os clientes querem e porque outros fatores — orçamentários, culturais, sazonais — favorecem.
A aplicação que virou caso clássico
O Cirque du Soleil é aplaudido nos quatro cantos do mundo. E é um caso típico de inovação porque não é um circo melhor: é uma reinvenção do circo.
O modelo tradicional, tomado por inteiro, já não se encaixava no novo padrão social, econômico e de sustentabilidade. Vejamos como os quatro quadrantes se aplicam.
Diminuiu os picadeiros. De vários, reduziu a apenas um, central, apropriado a espetáculos com música e dança de alta performance. Menos dispersão, mais intensidade.
Eliminou os itens de alto risco, como o globo da morte. E, sobretudo, o uso ostensivo de animais, frequentemente maltratados e subalimentados, que não se sustenta num mundo mais esclarecido.
Criou temas. Alegria, Bazzar, Crystal, Echo, Curios. Enredos e trilhas sonoras que aproximam a apresentação de uma ópera: uma história com início, meio e fim. O que antes era uma série de números de certa forma desconexos virou narrativa.
Ampliou a área geográfica. Levou os espetáculos temáticos simultaneamente para dezenas de países. Essa ampliação transformou o Cirque du Soleil numa potência do mundo do entretenimento.
O que isso ensina
Note o padrão: o Cirque du Soleil não venceu apenas por criatividade. Venceu porque teve coragem de eliminar o que definia o circo tradicional — os animais, o risco físico extremo, a estrutura de múltiplos picadeiros.
A maioria das empresas trava exatamente aí. Criar é agradável. Eliminar dói, porque quase sempre significa abrir mão de algo que um dia funcionou, ou que alguém defende internamente.
Uma das missões declaradas do Cirque du Soleil é maximizar a arte e a beleza, teatralizá-las, dar-lhes roteiro e fundo musical marcantes — elevando assim sua proposta de valor percebido e eternizando momentos de arte, graça e leveza. Isso é aumento de proposta de valor na prática. E foi obtido tanto pelo que se acrescentou quanto pelo que se removeu.
Como aplicar
A matriz é preenchida em grupo, e as ideias são discutidas sob diferentes ângulos e pontos de vista. Ao final dos quatro quadrantes, o grupo tem em mãos um cenário estratégico de atuação no mercado.
Um ganho lateral que costuma surpreender: além de ideias estratégicas, é muito comum obter melhoria substancial nos processos de negócio. Isso aparece sobretudo no quadrante Diminuir, quando se percebe que certos procedimentos podem ser dispensados sem nenhum prejuízo ao processo a que pertencem.
Muitas empresas descobrem, ali, que carregavam etapas que ninguém mais sabia explicar por que existiam.
Exercício: reúna seu comitê e preencha os quatro quadrantes sobre um único produto ou processo. Comece pelo Eliminar — é o mais difícil e o mais revelador.


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