Por que o banco não financia o seu crescimento
- carlos raimundo dos santos
- há 2 dias
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Atualizado: há 9 horas

Considere a seguinte situação, que é mais comum do que se imagina:
Uma empresa fatura R$ 100 mil por mês. Tem forte tendência de crescimento acelerado — a demanda está aparecendo mais rápido do que a capacidade de atendê-la. Para dar conta do novo patamar, ela precisa de R$ 15 milhões.
Vai ao banco. O banco oferece R$ 1 milhão.
Não é má vontade. É metodologia.
O descompasso
O banco analisa, primordialmente, o passado: seu histórico de relacionamento, seu faturamento realizado, suas garantias existentes. É um método que funciona razoavelmente bem para empresas de crescimento cartesiano — aquelas que crescem em linha reta, previsivelmente.
Mas empresas escaláveis não crescem assim. Elas crescem em curva exponencial. E, de tempos em tempos — a cada 2 ou 3 anos —, multiplicam o faturamento por 10. Sobem uma ordem de grandeza inteira. Em poucos anos, podem estar mil vezes maiores.
Um método de análise que olha para trás não consegue enxergar isso. O passado da empresa é literalmente pequeno demais para caber no seu futuro.
A alternativa: análise preditiva
Buscar investimento com base na análise preditiva do negócio passa a ser, nesse contexto, fator de sobrevivência e de mitigação de risco.
Isso significa calcular o valuation da empresa levando em conta um conjunto de fatores — inclusive a comparação com negócios semelhantes em fase equivalente de desenvolvimento (Pré-Seed, Seed, Rodada A, Rodada B).
Essa análise permite planejar a oferta de cotas ao mercado com base no valor futuro do negócio, e não no valor histórico. É o que abre caminho para o venture capital, geralmente proveniente de fundos de investimento.
Valuation não é só preço
Aqui está o ponto que costuma passar despercebido.
Mais útil do que simplesmente saber o valor de mercado da empresa, a metodologia de valuation serve como o referencial analítico mais importante para a gestão empresarial.
Existem dois modelos: o de empresas tradicionais, de crescimento cartesiano, e o de startups, que lidam com crescimento exponencial. São metodologias bem diferentes, porque retratam universos diversos. Mas ambas têm algo em comum: espelham o que o mercado enxerga de valor no negócio e traduzem isso em valor pecuniário — quanto o mercado aceitaria pagar pelo negócio, inteiro ou em partes.
Existe uma tendência crescente de considerar o valuation como um indicador tão importante quanto os demais para acompanhar uma empresa ao longo de sua vida. Não como um número que se calcula quando se vai vender, mas como um termômetro contínuo.
O que o capital viabiliza
Quando esse capital entra — geralmente muito acima do padrão em que a empresa operava —, ele viabiliza movimentos antes impensáveis: buscar excelência de processos e operação; adquirir capacitações que a empresa não tinha; contratar profissionais de elevada capacidade, porque agora há condição de pagar salários compatíveis; reestruturar fisicamente a empresa; fundir-se ou adquirir startups complementares, ganhando tempo e qualidade; ampliar parque industrial; instalar um setor de Pesquisa e Desenvolvimento; investir massivamente em marketing; ampliar o número de unidades operacionais.
A cultura de investimento
Empresas que dominam esse jogo desenvolvem o que se pode chamar de cultura de investimento.
Consiste em organizar previamente o desbaste das cotas dos sócios a cada valuation, ao longo das diversas rodadas. Todo o planejamento estratégico e orçamentário passa a ser concebido em função dessas rodadas previstas.
A empresa passa a ser pensada e planejada em função dos futuros aportes — que, por sua vez, são determinados pelos sucessivos cálculos de valuation. É uma inversão de perspectiva: em vez de buscar dinheiro quando ele falta, a empresa constrói-se sabendo quando e como o capital entrará.
Primeiro passo: calcule o valuation da sua empresa hoje, mesmo que não pretenda vender nada. Sem esse número, você está negociando o futuro com informações do passado.


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